Vida Internacional · 21 de agosto de 2026 · 9 min de leitura

Termas do Uruguai: o petróleo que ninguém encontrou

Em 1957, técnicos da ANCAP furaram o norte do país à procura de petróleo. Saiu água a 39 graus. Hoje é a região termal, e a ciência a mapeou.

Em outubro de 1957, técnicos da ANCAP — a petroleira estatal uruguaia — perfuravam o norte do departamento de Paysandú em busca de petróleo.

Não encontraram.

O que subiu pelo poço foi outra coisa: um manancial de água cristalina, carregada de minerais, a cerca de 39 graus.

Na época, aquilo foi registrado como fracasso técnico. Hoje é uma das maiores riquezas naturais da região e o motor econômico de duas cidades — e o Uruguai acaba de mapear cientificamente, pela primeira vez, o que exatamente tem dentro dessa água.

Onde fica, e por que fica ali

A Região Termal Uruguaia ocupa o litoral noroeste do país, nos departamentos de Salto (136.197 habitantes) e Paysandú (121.843), sobre o rio Uruguai e de frente para a Argentina.

A explicação é geológica e vale entender, porque é ela que garante que o recurso não se esgote.

A água vem do Sistema Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios transfronteiriços de água doce do mundo: cerca de 1,2 milhão de km² distribuídos entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

No território uruguaio, o aquífero aflora na superfície a leste, nos departamentos de Rivera e Tacuarembó, e mergulha progressivamente para oeste, onde fica confinado sob os basaltos da Formação Arapey — a mesma formação Serra Geral conhecida no Brasil. Perto do rio Uruguai, essa camada de basalto tem espessura média de cerca de mil metros e funciona como uma tampa.

É por isso que os poços termais de Salto e Paysandú precisam descer entre 1.000 e 1.400 metros. E é por isso que a água sobe quente: circulou confinada, em profundidade, por muito tempo.

O que a ciência descobriu em 2026

Aqui está a novidade, e ela é recente.

Pesquisadores da Universidad de la República e da Universidad Complutense de Madrid desenvolveram, ao longo de três anos, o primeiro Vademécum de Águas Minerais Termais do Uruguai. Os primeiros resultados foram apresentados em junho de 2026, em Salto, durante a Primeira Jornada de Hidrologia Médica e Turismo Termal.

Foram analisados os sete poços termais da região. Pela primeira vez, sabe-se a composição mineral de cada um deles — e eles não são iguais.

O estudo classificou as águas em dois grupos:

Grupo 1 — as águas do Aquífero Guarani (Arapey, Altos del Arapey, Daymán, Aguas Claras, Guaviyú e outro poço de Salto). Mineralização fraca a média — resíduo seco entre 311 e 734 mg/L —, temperaturas de mesotermais a hipertermais e predomínio de bicarbonato e sódio, com cálcio e magnésio.

Grupo 2 — Almirón, em Paysandú, que não vem do Aquífero Guarani: origem hidrogeológica distinta, ligada ao embasamento cristalino e a unidades sedimentares devonianas. Fácies cloretada sódica, mineralização forte — resíduo seco de 6.590 mg/L — e temperatura mais baixa.

As temperaturas medidas variam de 32 °C em Almirón a 44,5 °C em Aguas Claras, com pH entre 7,8 e 8,5.

Segundo o responsável pela área de turismo da Intendencia de Salto, é a primeira vez que se dispõe dessa informação — o que permite a hotéis e centros termais descreverem com precisão as propriedades da água que oferecem.

O que essas águas indicam — e o que ainda não se pode afirmar

Aqui é preciso ser rigoroso, porque o assunto atrai promessa fácil.

O estudo aponta, por analogia com perfis hidrotermais internacionais comparáveis, indicações balneológicas principais ligadas a afecções musculoesqueléticas e reumáticas e a afecções dermatológicas, além de indicações emergentes relacionadas a estresse, distúrbios do sono e obesidade.

As águas do primeiro grupo, de baixa mineralização e temperatura mais alta, aparecem associadas a usos ligados a dermatite atópica, redução de estresse, melhora do sono, relaxamento muscular e quadros reumatológicos. As de Almirón, mais mineralizadas, são apontadas para psoríase, tratamentos de flutuação e processos de reabilitação — com a ressalva expressa de que exigem mais cuidado, orientação profissional e não são recomendadas para tratamentos prolongados.

E a ressalva mais importante é do próprio estudo: os pesquisadores concluem que pesquisas futuras devem se concentrar em estudos clínicos e balneológicos controlados para validar efeitos terapêuticos específicos. O que existe hoje é caracterização química e classificação por analogia — não é comprovação clínica.

Nenhum centro termal deveria prometer mais do que isso, e nós tampouco.

Os quatro centros

Cada um tem regime de acesso e perfil próprios.

Termas del Arapey (Salto). O primeiro complexo termal do Uruguai. Fica 80 km ao norte da cidade de Salto — km 548 da Ruta 3, mais 19 km pelo camino Raúl Gaudín. Tem piscinas abertas, cobertas e semicobertas em meio a jardins, com bungalows, motéis e hotelaria em regime all inclusive. O acesso é restrito a quem se hospeda no centro termal.

Termas del Daymán (Salto). Km 478 da Ruta 3, a apenas 10 km da cidade de Salto — o mais urbano e o mais acessível dos quatro. Tem hotelaria variada, spa, piscinas termais privadas e o parque aquático Acuamanía. A área municipal é aberta ao público em geral, com piscinas de temperatura regulada por estação. Fecha às quartas-feiras.

Termas de Guaviyú (Paysandú). O centro nascido do poço de 1957. Um parque fechado de 109 hectares, com 15 piscinas entre 26 e 41 °C, cobertas e ao ar livre, cercadas de palmeiras yatay e mato nativo, à beira do arroio Guaviyú. Tem camping, motéis municipais, cabanas e opções privadas. Acesso restrito a hóspedes.

Termas de Almirón (Paysandú). As únicas termas de água salgada da região. A área municipal tem piscinas de água salgada e de água doce, bungalows, cabanas e camping, com empreendimentos privados no entorno. Acesso restrito a hóspedes.

Por que isso interessa a quem pensa em morar no Uruguai

Três razões concretas, além do fim de semana.

É uma região com economia própria e permanente. Salto e Paysandú somam mais de 250 mil habitantes e são as duas maiores cidades do interior uruguaio. Não são balneários sazonais: são cidades com hospital, universidade, comércio e indústria — e um setor turístico que funciona o ano inteiro, com pico no inverno.

O custo de vida é o mais baixo do país. É o litoral do rio Uruguai, fora do eixo Montevidéu–Punta del Este e fora da lógica de preço da costa atlântica.

O perfil de uso é de longa permanência. Termalismo é, por natureza, uma atividade de estadas longas e repetidas — o oposto do turismo de temporada. Para quem pensa em imóvel de renda, é uma demanda distribuída ao longo dos doze meses.

E vale a franqueza: quem depende de escola internacional, medicina de alta complexidade ou aeroporto internacional diário vai continuar precisando de Montevidéu. Esta é uma região para quem prioriza custo, natureza e ritmo — não densidade de serviços.

Nota de responsabilidade: os dados hidrogeoquímicos, as temperaturas, os valores de resíduo seco e a classificação das águas provêm do estudo de caracterização das águas termais uruguaias conduzido por pesquisadores da Universidad de la República e da Universidad Complutense de Madrid, cujos primeiros resultados foram apresentados em junho de 2026. As indicações balneológicas citadas são classificações por analogia com perfis internacionais comparáveis; o próprio estudo conclui que estudos clínicos controlados ainda são necessários para validar efeitos terapêuticos específicos. Este artigo não constitui orientação médica. Informações sobre regime de acesso, horários e serviços dos centros termais provêm de fontes oficiais departamentais e devem ser confirmadas antes da visita. Os dados de população são do Censo 2023 do INE.

Perguntas frequentes

Onde ficam as termas do Uruguai?

No litoral noroeste do país, nos departamentos de Salto e Paysandú, sobre o rio Uruguai. Os quatro centros principais são Arapey e Daymán, em Salto, e Guaviyú e Almirón, em Paysandú.

De onde vem a água termal uruguaia?

Da circulação profunda do Sistema Aquífero Guarani, que ocupa cerca de 1,2 milhão de km² entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. No noroeste uruguaio o aquífero está confinado sob os basaltos da Formação Arapey, e os poços descem entre 1.000 e 1.400 metros. A exceção é Almirón, cuja água tem origem hidrogeológica distinta.

Qual a temperatura das águas?

As medições do estudo de 2026 registraram de 32 °C em Almirón a 44,5 °C em Aguas Claras. Em Guaviyú, as 15 piscinas operam entre 26 e 41 °C.

As águas termais uruguaias têm efeito terapêutico comprovado?

O estudo de 2026 caracterizou quimicamente as sete fontes e apontou indicações balneológicas por analogia com perfis internacionais — sobretudo musculoesqueléticas, reumáticas e dermatológicas. Os próprios autores concluem que estudos clínicos controlados ainda são necessários para validar efeitos terapêuticos específicos.

Qual das termas é aberta ao público sem hospedagem?

A área municipal das Termas del Daymán, em Salto, tem acesso liberado ao público em geral, com fechamento às quartas-feiras. Arapey, Guaviyú e Almirón restringem o acesso a quem se hospeda no centro termal.

Como as termas foram descobertas?

Por acaso. Campanhas de exploração petrolífera nas décadas de 1940 e 1950 encontraram água termal em vez de petróleo. No caso de Guaviyú, a perfuração da ANCAP em outubro de 1957 fez emergir um manancial a cerca de 39 graus.

O ponto de partida

Há uma ironia bonita nessa história, e ela diz algo sobre o país.

O Uruguai passou décadas procurando petróleo e nunca encontrou. Encontrou água quente a mil e quatrocentos metros de profundidade, em uma região pobre do norte, e transformou o que era um fracasso de sondagem em duas cidades com economia turística permanente — e, quase setenta anos depois, mandou duas universidades estudarem exatamente o que há dentro dela.

É a mesma lógica que aparece na matriz elétrica, no sistema de saúde e no sistema de cuidados: usar bem o que se tem, documentar, e construir política pública em cima disso.

O mapa completo do país está em Mapa das regiões do Uruguai, e o custo, em Custo de vida no Uruguai em 2026. Para quem avalia o país nesta fase da vida, o quadro está em Envelhecer no Uruguai e em Saúde no Uruguai.

E quando a região escolhida virar projeto de mudança, é esse percurso que fazemos ao lado da família em Instalação e Vida.


Conteúdo informativo. Não constitui aconselhamento médico, imobiliário, jurídico ou de investimento. Dados verificados em 21 de agosto de 2026 junto a fontes científicas e oficiais uruguaias. As propriedades das águas termais descritas correspondem a caracterização química e classificação por analogia, não a comprovação clínica. Cada situação é analisada individualmente.

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